Naquela tarde de domingo de 1971, o mês era maio e o grito um assustado de um filho que vê sua mãe convulsionando rompe o casarão no Pacaembu (bairro na cidade de São Paulo). O marido, médico e o outro filho estudante de medicina correm e encontram D. Cecília desmaiada em sua cama. Levada às pressas para o Hospital das Clínicas. O dia 26 de maio de 1971 foi o dia marcante vida de todo os integrantes da família Martinez, mesmo dos sete membros que ainda estavam por vir.
Após os exames iniciais foi diagnosticado um problema crônico nos rins de D. Cecília e assim que possível foi submetida a várias sessões de diálise para estabilizar seu quadro até que vem o diagnóstico final, a necessidade de um transplante. Eis que nesse momento, surge um anjo na vida dessa família, Dora, a irmã mais nova de Cecília que, no ato de maior coragem e amor que eu não presenciei, oferece um de seus rins sadios para sua irmã e dessa forma, salva sua vida e propícia a mim e aos outros seis netos de D. Cecília o prazer de ter tido a melhor avó do mundo.
A cirurgia ocorreu entre junho e julho, no mesmo hospital das Clínicas até que no dia 6 agosto de 1971 a Vó Cecília, retorna para casa, conforme registro de meu avô, no “blog de papel” que ele mantinha a pedido dela.
O transplante trouxe alguns novos hábitos à minha avó e à família, como o uso de remédio (cortisona) diariamente, se não me engano para impedir a rejeição do órgão doado, a busca mensal do remédio na farmácia para transplantados e a proteção da região abdominal, local onde o rim foi disposto.
Quatro anos depois, eu nasci e convivi com minha querida avó, com ela jogando futebol conosco, fazendo suas impecáveis malhas de tricô em máquinas na sua “salinha do tricô, viajando para o Guarujá e caminhando 2 ou 3 quilômetros para comprar pão e leite logo bem cedinho nas manhãs de sábado e domingo e levando multas por excesso de velocidade na estrada (desculpa vó, mas não podia deixar essa passar), como uma pessoa normal.
Minha querida avó, conseguiu ver os cinco filhos se formarem em suas faculdades, formarem famílias, criarem seus filhos, sem apresentar nenhum problema renal grave durante os 23 anos que viveu com o rim doado por sua irmã, até que em 1994 um câncer a tirou de nós, e o rim firme e forte. Suas córneas foram doadas e hoje continuam vendo o mundo com as mesmas cores e bom astral que ela sempre encarou a doença e as novas necessidades pós transplante.
Já a tia Dora e seu jeito sempre calmo e solicito, continuou pintando suas telas, indo para o Guarujá conosco, conheceu seus quatro netos e viveu encarando algumas outras doenças não relacionadas à doação com a mesma vaidade de sempre, até em dezembro do ano passado, finalmente descansou e com certeza, como ambas acreditavam, encontraram-se em algum lugar especial.
Se alguém ainda tem alguma dúvida, eu sou doador de órgãos e tecidos e convido a todos que tenham a mesma atitude.
Vó, saudades… Eu te amo. Ricardo