Experimento para se sentir vivo… no corpo dos outros

M.C. Escher, Bond of Union, 1956“O outro é você mesmo em um mundo diferente.”
–Lama Padma Samten

Os ensinamentos budistas e mais recentemente as ciências cognitivas questionam a existência de uma identidade sólida, um self central único, a alma essencial que acreditamos ser.

Francisco Varela (biólogo, no genial A Mente Incorporada), Marvin Minsky (especialista em inteligência artificial), Daniel Dennett (filósofo), Eleanor Rosch (psicóloga), Sua Santidade o Dalai Lama (meditante profissional)… Todos aplicam a frase do sociólogo Zygmunt Bauman ao corpo humano: “A cabine do piloto está vazia”.

Nós temos a sensação de estar localizados dentro da cabeça, logo atrás de nossos olhos. É dessa perspectiva que andamos no mundo. É isso o que queremos dizer com a palavra “eu”. No entanto, quem estuda a mente e o cérebro (biólogos, neurocientistas, matemáticos, psicólogos, meditantes) rapidamente percebe que o “eu” é difícil de ser encontrado.

Não estou nas sinapses disparadas em meu cérebro, não estou no meu coração (que aliás pode ser trocado sem que eu perca minha identidade), não estou nos meus membros, não sou meus pensamentos, emoções ou memórias (que mudam e até podem ser apagadas sem que eu me perca)… Não estou em lugar algum!

Percepção assombrosa: ainda que eu não esteja em lugar algum, eu nitidamente estou aqui! Embora eu não saiba o que sou, eu tenho certeza que sou.

Os mestres zen aproveitam tal paradoxo para se divertir com seus alunos. Diante de uma carroça, perguntam: “As rodas são a carroça?”. Todos respondem que não. “Os assentos são a carroça?”. Claro que não. E eles seguem apontando para todas as outras partes. No entanto, se tiramos as rodas e os assentos, a carroça ainda existe? Não, óbvio. A carroça não é nenhuma de suas partes e, ao mesmo tempo, não é nada sem elas.

Assim parece funcionar o corpo humano. A lembrança da noite de ontem não se reduz a uma sequência de sinapses, assim como o amor não é apenas uma combinação de explosões químicas. Ainda assim, não é possível pensar sem neurônios ou sentir sem ser percorrido por hormônios e outras substâncias. Não nos relacionamentos com cérebros e pulmões, mas com outras vidas, mentes, histórias, sonhos, desejos. No entanto, retire cérebros e pulmões, o que sobra? Nada.

Quando isso acontecer comigo, quando meus órgãos não mais estiverem sustentando essa vida por trás dos olhos, sonho ou amor algum, quero que meu coração seja usado para fazer fluir outro sangue, outra vida. Quero que sonhos outros sejam continuados. Outro olho por trás de minha córnea, outro toque em minha pele, outro jeito de puxar oxigênio pra dentro dos meus pulmões.

Mas muitas pessoas talvez impeçam isso, no meu caso e em outros. Para meus familiares e todos aqueles que se opõem à doação de órgãos, sugiro um experimento de percepção:

1. Você pode fazer na rua, mas o ideal é que seja em um local com bastante gente parada: livraria, vagão de metrô e restaurante são ótimas opções.

2. Comece com uma pessoa mais distante, para não levantar suspeitas. Contemple cada gesto dela com atenção, observe, se demore, realmente olhe o outro sem julgamento algum, como se estivesse admirando um leão ou um pássaro.

3. Olhe ao redor dela e imagine o que ela está vendo de sua perspectiva. Se ela está olhando para um livro cujas páginas estão ocultas a você, imagine o conteúdo dessas páginas. Se ela está olhando por uma janela, imagine o que ela vê a partir de sua perspectiva. Se ela olha para o chão, esqueça a sua própria visão de uma pessoa lá longe olhando o chão – em vez disso, construa em sua mente o que ela está vendo.

4. Depois de brincar com a visão, prossiga com a audição (imagine que ela está ouvindo), gustação (se ela estiver comendo, imagine o gosto daquilo) e olfato (imagine o que ela está cheirando).

5. Agora a parte mais interessante: o tato e a sensação de ser outro corpo. Se ela estiver com fones de ouvido, lembre como é ter um fone no ouvido e deixe a sensação crescer, ficar nítida. Se ela estiver com uma blusa pesada, imagine esse peso. Se a pessoa estiver com muito gel no cabelo, lembre como é ter gel no cabelo e sinta o molhado. Se ela estiver com menos roupa no frio, imagine-se vestindo o mesmo que ela. Se ela for bem mais velha, tiver cabelo mais longo e estiver de óculos, imagine-se velho, mulher de cabelos longos e óculos.

6. Torne-se a outra pessoa, veja o mundo que ela vê, encarne seus gestos, suas memórias, sua respiração… Vista o corpo dela. Tudo isso usando a imaginação, claro, sem se mover, apenas brincando com sua mente.

7. Escolha outra pessoa e repita o experimento.

Eu já fiz isso diversas vezes no metrô. Depois de um tempo, você percebe que todo o processo que o ocorre com você (se sentir alguém por trás dos olhos, ter pensamentos, ver um mundo aparentemente sólido ao redor, possuir manias e trejeitos, piscar, salivar, sorrir) também acontece igualzinho com todas as outras pessoas.

Você se assusta com o fato de que passou a vida inteira olhando o mundo a partir de sua perspectiva! Parece óbvio, mas não é uma percepção que sustentamos no cotidiano enquanto nos relacionamos com os outros.

E então você olha para seu passado e observa que a sua própria perspectiva também mudou. De fato, nada se manteve – certezas e células, sonhos e cortes de cabelo, tudo se transformou desde que você era bebê. Com o tempo a gente acaba virando outro para si mesmo, como se o passado fosse um filme cujo personagem principal é outra pessoa.

A única coisa permanente que continuou é esse brilho nos olhos, essa sensação de estar desperto com um mundo colorido em alta resolução ao redor, essa capacidade de desejar, sonhar, ter prazer e dor.

A única coisa que continua na sua vida é exatamente aquilo que todos os outros seres compartilham.

Trejeitos, identidades e memórias mudam, seja comparando você criança e você idoso, seja comparando você e um nigeriano. Mas o brilho nos olhos é apenas um, que se estende de pessoa em pessoa. E a sensação de estar vivo, amar e fazer alguém feliz, ela é única em todos os corpos do mundo. Ou seja, aquilo que temos de melhor (não nossos hábitos, crenças, opiniões, mas nossa lucidez) é justamente o que não se perde com nossa morte.

Quando sua vida parecer acabar, apenas estenda a mão e siga.

* Gustavo Gitti é autor do Não2Não1, blog e futuro livro sobre relacionamentos lúcidos.